10 de janeiro de 2015

Modelo a Seguir

Para mim nem todos podem ser modelo. Para mim, nos meus castings que ainda hão de vir, nas minhas escolhas fictícias e naquelas que me servem realmente a um propósito pessoal e profissional. Não podem. Nem todos podem.

Isto não tem a  ver com medidas, caras ou tamanho de pé, embora calçarem o mesmo que eu acabe por dar imenso jeito! A única coisa boa de ter manequins tamanho 34 a vestir as nossas invenções é o que poupamos em material (= dinheiro) nas amostras. Gosto de pessoas estranhas, de belezas difíceis, não óbvias, de defeitos, de características únicas. Tenho dentro de mim uma obsessão por pessoas, uma vontade sem pudor algum de observar de cima a baixo e pouca desenvoltura para uma poker face que finja olhar para o vazio. Não, estou mesmo a olhar para ti e se pudesse seria raio-X. Gostar de pessoas é o que me define. Não adoro animais e não me interesso por Ciências da Natureza. Já tudo o que esteja ligado ao Ser Humano me intriga e me define. A parte de construir pessoas/personagens é o que mais me dá prazer nestas lides do Design e da Moda. O lifestyle, a aparência, o que sentem, com quem o sentem... Quem são? Por isso escolher corpos e rostos que encorporem essas particularidades é um dos meus dream jobs

Fotografia de Filipa Alves para La Paz


Para mim podem ser modelos anões, grávidas, plus size, velhos e novos, andróginos... Gaultier e Galliano talvez tenham sido pioneiros nestas opções, Yohgi Yamamoto tem o hábito de optar por verdadeiros GILF, e La Paz, marca portuguesa, tem dos look books mais reais e belos que tenho visto. Este  tipo de modelo que também cadeias fast já tinham anunciado como nova tendência e bloggers se tinham dedicado como principal caso de estudo/adoração. (E foi um deles que me fez vir escrever sobre este tópico, sim Rita, és uma collhunter de mérito!)

Agora é a vez da Céline e da Saint Laurent abrirem excepções à regra dos castings . A Céline está demasiado cool de momento para não apostar na cena mais cool do momento, senhoras para lá dos sessenta anos, lindas, icónicas. O seu sneak peek da próxima campanha com a Joan Didion rebentou a Internet! A Saint Laurent, que me deu um pouco de secas quando ficou na mão do Slimane e começou a ser totalmente desmembrada, redimiu-se comigo agora, colocando a querida Joni Mitchell na sua campanha! Isto não são novidades mas são boas notícias: marcas que andam na boca, corpo, mãos e pés do mundo (nem que seja apenas em boards de Pinterest) a apostarem neste modelo a seguir.

E porquê idosos? Porque continuam a ser belos, elegantes, a terem de se vestir e, logicamente, a terem de consumir. Muitas mulheres pós-menopausa sempre se vestiram bem, gostaram de moda e compraram roupa de x ou y designer, desde que eram adolescentes ou jovens adultas. Com a idade o seu gosto não cessa, a sua vontade de se apresentar aos outros não cessa. Faz todo o sentido as marcas servirem-se de ícones desta geração para criarem empatia com este público (que tem uma qualidade de vida superior agora) mas também com as gerações mais novas que apreciam indivíduos que revolucionaram a sociedade e que continuam a fazê-lo. Será que a Moda enquanto fantasia está a perder a corrida em prol da aproximação ao real,  ou que o nosso mais secreto desejo é envelhecer bem para um dia podermos ser como uma das mulheres deste documentário?

Pensei que esta semana não queria falar  sobre este tema, senti que não tinha mais nada a acrescentar, mas quando hoje vi que a Céline não era um caso isolado do momento acreditei que não há coincidências... Os burburinhos já não são sussuros, são conversas em voz alta de aceitação, de apreciação do real e de ode à humanidade, aos ciclos, à vida.


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