15 de fevereiro de 2015

Ser Latina


 Ana Malhoa via Facebook


Tenho uma eterna discussão em que defendo as minhas origens e digo que sou latina e a maioria dos receptores desta opinião discordam. Nessa maioria existe outra que faz referência à canção da Ana Malhoa em tom pejorativo. Não posso discordar mais. Eu e a outra Ana somos latinas sim senhor!

A meu ver latinos são aqueles cuja cultura e língua deriva da expansão do Império Romano: Roménia, Itália, França, Espanha e Portugal. Ao longo dos tempos e com o consumo cultural quase sempre exportado da América, o conceito latino começou estritamente a vincular-se àqueles com origem nos países da América Latina. Nestes países as línguas faladas maioritariamente são o português, espanhol e francês, logo a influência europeia foi um grande input na sua cultura. Devido a determinações geográficas, deram-se migrações e população de origem américa-latina chegou aos E.U.A.. Formaram comunidades quase fechadas, passando tradições de geração em geração, que foram interpretadas e passadas para o mundo em forma de estereótipos. Esses clichés foram consumidos e fabricaram uma imagem daquilo que é ser-se latino. Uma imagem, para mim, bastante redutora, tanto geograficamente como no que diz respeito ao aspecto e lifestyle.

Um desses estereótipos representa a Chola, mulher, jovem, origem américa- latina (normalmente mexicana), vinculada a gangues, vaidosa e com códigos de aparência bem assentes (a Jenny mostra-vos alguns exemplos). A primeira vez que ouvi falar deste termo foi com uma funcionária de um dos maiores monstros da indústria de Moda e vestuário. Dizia-me ela que uma das linhas que vendia muito era pensada directamente para este público.

Jennifer Lopez no vídeo Get Right


FKA Twigs, na capa da i-D em 2012, mostrou a sua versão reinventada deste grupo urbano e tornou-se a principal inspiração de Rita Ora, Rihanna e Katy Perry para os seus visuais Chola. Passados dois anos vimos a artista a ser reconhecida pelas massas e o seu hairstyle peculiar tornar-se queridinho nos corações dos designers. A particularidade aqui é que FKA Twigs é de origem londrina, inspirou-se na estética américo-latina e colocou-a no foco da indústria. Nos desfiles Prada, DKNY, Sportmax e Givenchy Spring-Summer 2015, as escolhas passaram por assumir os cabelos bebés distribuídos em ondas e fixados com gel. A revista Love fez um editorial em que todas as modelos também tinham os baby hairs bem arrumadinhos em caracóis.

FKA Twigs via Pinterest


Mais uma vez se comprova a apropriação cultural por parte da high fashion, que repete fórmulas de tribos urbanas. Normalmente grupos contra-correntes, tidos como perigosos e descriminados socialmente. Será esta apropriação errada, como muitos apontam? É fruto da globalização e aceitação da diversidade mas transmite-se enquanto componente estética e raramente cultural.

Ver constantemente imagens com aquela abordagem ao cabelo despoletou-me imensa curiosidade e fez-me pesquisar. Por um lado glorificava algo extremamente comum mas que se costuma controlar e esconder: cabelos bebés, por outro insinuava-se como uma tendência importante e não banal ou fruto da coincidência. Todos nos apercebemos que as culturas guetto estão bem vivas nesta era (mudança de padrões de beleza a favor da mulher curvilínea, twerking, apropriação imagética de styling, materiais, formas e produtos) e neste sentido "glamorizar-se" a identidade américa-latina urbana representa mais uma aproximação às ruas, ao real e negligenciado.

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