6 de março de 2015

Retro & Vintage Lover

Cerca de setenta por cento do que visto é em segunda mão. Gastei alguns euros a criar um guarda roupa quase único no meu segundo ano da faculdade, algumas coisas viajaram cinco anos para o futuro, umas foram dadas, vendidas e poucas estão em meu uso agora.
Desde sempre que o lixo dos outros é o meu tesouro. Aproveito tudo o que me derem, desde que sirva: camisas, botas, casacos, malas, acessórios...

No meu segundo ano de faculdade (ano em que está comprovadíssimo como aquele em que mais se é criativo no vestir, mais esforço existe na procura de identidade) saía à noite com um blazer azul, Blue Curacao 15-4825 TPX, segundo a paleta Pantone, que pertencera à minha mãe antes de eu nascer, e umas leggins de criança no mesmo tom com padrão floral garrido, que comprei na "loja das velhas" de Castelo Branco por 5 €.  Para além da afirmação de identidade, existiam outras razões para começar a minha colecção de roupa em segunda mão... Aprendi na altura as fibras e descobri as suas qualidades e os seus defeitos. Comecei a consciencializar-me acerca de produção e consumo sustentável. Encontrei lojas e feiras baratíssimas com peças cujas etiquetas diziam made in Portugal, 100% lã virgem, 70% mohair, 80% lã, 100% algodão, 50% seda.

Casaco Anastasia II numa foto que tirei à Michelle


A partir do momento em que acabei os meus dias de estudante, voltei à terra e a casa da mãe, senti-me pouco confortável nas minhas roupas, e não era só devido ao seu cheiro-a-velha. O mal dos meios pequenos é a homogeneidade, que faz com que todos virem a cabeça caso vista uma saia com um padrão menos normal ou use um chapéu. O conceito de normal muda. E acaba-se por perder uma certa genuinidade no vestir, na apresentação. As peças vintage ou em segunda mão, quase nunca parecem apropriadas, normais! Comecei a ponderar mais antes de sair de casa, principalmente para entrevistas. Foi a custo que percebi que me valia mais ser eu própria e não me preocupar tanto. Mas ainda assim troquei o meu arco-íris de padrões florais por peças lisas, quase sempre em preto. As roupas vintage foram ficando sempre na base das pilhas e no fundo do armário. Comecei a ir a lojas mais convencionais, invés de vasculhar as lojas mais bafientas. E até mesmo quando fui com uma amiga a um espaço de peças em 2ª mão, alternativo aos circuitos mais visitados no Porto, me decidi por um vestido preto, em malha com grande percentagem de lã, gola alta e um corte que acreditei exacerbar o melhor de mim. Na etiqueta lia-se Zara. Zara?! Agora do meu espólio em segunda mão fazia parte um Zara? Podia chamar vintage àquele vestido?  Um vintage com, no máximo, seis anos?

Repensei então o vintage e o retro. Vivemos numa era tão fast que peças em óptimo estado e com não mais de cinco Primaveras vão parar a lojas em segunda mão. Isto dificulta o acto de encontrar verdadeiros tesouros, mas facilita quem, tal como eu estava, se encontra em transição. Porém, não posso chamar a essas peças nem vintage nem retro. Ou posso? Um dia os meus filhos e netos vão poder? OU ficamo-nos pelo antigo, velho ou usado?

Às minhas peças favoritas, que foram reais achados, dou nomes:

- Casaco Anastasia I: mega percentagem de lã, vermelho com punhos e gola em pelo e botões de fantasia grandes e bonitos. 5€. Muito quente e bonito e valeu-me a única foto que me tiraram na vida de street style. Abandonei-o no fundo do armário pois a minha mãe, habituada ao vestuário de fibras sintéticas dos dias de hoje, lavou-o na máquina, encolheu.

- Casaco Anastasia II: um achado no mesmo sítio, 100% lã virgem, 3€. Vermelho, claro está, com shoulder pads e um odor que em nada me assentava bem. Lavei, lavei, lavei, rios de tinta rosa corriam na minha banheira. Não o usei porque não me livrei do cheiro. Dois anos mais tarde lá o carreguei à lavandaria, e se é pesado! Voltou, a cheirar a lavagem a seco, mas o meu meticuloso olfacto continuam a sentir as notas de armário fechado durante trinta anos.

- Mala Chiquinha: Em pele preta e vermelha, pequenina e super chic, 5€ numa feira de rua em Vila Real.

- Roxinho: um slip dress semi-transparente que não era mais que uma camisa de dormir com rendas e plissados. Linda, num violeta clarinho, que tenho de adaptar para vestido urgentemente este Verão.

- Gémeas: duas pastas masculinas em pele na cor mais disparatada dentro do género, brancas! Comprei uma com mega desconto numa loja que ia fechar e passados uns meses encontrei outra idêntica nos arrumos de casa.

Aos poucos sinto-me a voltar a algo que já fui, a apreciar misturas estranhas e a pegar em peças que não vestia há algum tempo. Ninguém me tira da cabeça que print leopardo com riscas e batom vermelho, género cereja no topo do bolo, fica espectacular. Ou que padrão polka dot usado em diferentes peças, com diferentes escalas e paletas de cor negativas é clássico e fresh ao mesmo tempo. Flores havaianas são o céu e sempre foram, estrelas fazem-me lembrar os meus 15 anos e pie de poule não é só para cotas! Anuncia-se a morte do normcore e as colecções para o próximo Inverno têm saído e mostrado como o retro é tendência, dos anos 70, às reminiscências de qualquer infância, aos anos 90  (já ali mas há 25 Primaveras atrás...) e 00
Sinto-me feliz por ter guardado os lenços de seda da avó, os blazer over sized da mãe e um vestido (falta apertá-lo) em brocado dourado de uma tia!

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