21 de maio de 2015

Partir o Molde



Chantelle Winnie via Site Oficial

Numa altura em que a aceitação parece ser a palavra do ano, vemos, através da Moda uma plataforma social a ser erguida. Nesta plataforma, que de fútil não tem nada, aceitam-se novos parâmetros de belo, pequenas conquistas numa indústria dominada por aparências já muito mastigadas.

Um destes exemplos é a modelo Chantelle Winnie, tem vitiligo, (a mesma doença que Michael Jackson tinha) que causa despigmentação da pele. Chantelle foi descoberta por Tyra Banks no Instagram e fez parte das canditadas a ANTM (America's Next Top Model) do ano 2014. A manequim conta que foi vítima de bullying na escola e não é difícil acreditar que seja verdade. A diferença traz desconfiança, as crianças são curiosas e a mistura destas componentes podem resumir-se em maldade crua. Porém, a sua beleza, com ou sem manchas, mas que é única devido a elas, concretizou o seu sonho de carreira. Ganhou imediatamente um contrato com a Desigual e outro com a Diesel, onde protagoniza e dá força a campanhas publicitárias. Como ela mesma diz, estas diferenças tornam a Moda menos "aspiracional" e mais "inspiracional". 


Ao género do programa televisivo acima mencionado temos Britain's Missing Top Model de 2008. Embora só tenham feito uma temporada, o programa conseguiu abrir mentes ao investir em mulheres amputadas, surdas, paraplégicas...  O programa só teve uma temporada pois estava envolto em acusações de se estarem a aproveitar das deficiências destas modelos como um espectáculo televisivo. 

Debbie Van Der Putten via Blog Oficial

Hoje a informação de trabalhos feitos por modelos "diferentes" é constante: Jillian Mercado, que sofre de Distrofia Muscular, foi também uma das seleccionadas na Primavera passada a dar o corpo e cara pela Diesel. Moffy é uma manequim estrábica que tem feito trabalhos menos comerciais mas de uma estética bem indie e apetecível. Tess Holliday é dois em um, tatuada e plus size, uma das modelos maiores no seu nicho que é hiper famosa nas redes sociais. A indústria está atenta e investiu nela como manequim de uma das muitas marcas direccionadas a mulheres com excesso de peso. Porque o que pesa aqui não é o factor saúde, mas sim encontrar soluções para todos os corpos, daqueles que não querem mudar e também daqueles que estão em processo de emagrecimento. Todas as pessoas na sociedade em que vivemos merecem ter opções. É nesta base que se tem construído o consumismo e é nesta base que se trabalha a democracia da Moda.

Em todos os casos há o verso da moeda. Ao apostar em figuras que se distanciam da norma as marcas vão conseguir quase sempre uma projecção grotesca, outra vez devido à curiosidade do consumidor. Estas figuras, diferentes mas belas tornam-se meios humanos de alcançar uma imagem de marca moderna e inclusiva, não só para aqueles que se identificam directamente com as características dos manequins, mas também por qualquer espectador minimamente sensível. Podemos falar de exploração das marcas, uma exploração social, um trabalho feito com base nas fraquezas e defeitos que quem compra vê em si e deseja superar, ou pelo menos, que alguém os deseje mesmo com aqueles defeitos. Andreja Pejic fala deste aproveitamento por parte da indústria que, após o processo de mudança de sexo, a ignorou, quando antes (enquanto homem andrógeno) a venerava.

No final do dia o que conta é o cachet ganho? A realização de um sonho? A conquista do respeito há muito desejado? O sentimento de ter transmitido mais confiança a alguém?
Para mim só conta a 100% quando as grandes maisons partirem o molde.


P.S.I: Será Chantelle a versão feminina e natural de Rick Genest ?
P.S.II: Todos os manequins aqui mencionados têm perfil no Models.com, à excepção de Tess Holliday.
P.S.III: Ver o filme Rust and Bone

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