5 de dezembro de 2015

A Ângela


 Ilustração Jim Cooke

No core de Lisboa, num primeiro andar de um prédio histórico, com elevador, existe um daqueles salões de beleza antigos, grandes, com todos os serviços que poderemos precisar: da podologia às nuances, das massagens às maquilhagens... Lá, num pequeno e espelhado gabinete de estética, conheci uma das histórias mais inspiradoras que ouvi na minha vida, o nome dela é Ângela. 

A depilação é, para a maioria das mulheres, a maior preocupação a nível estético. As imposições da sociedade são ainda muito rígidas no que diz respeito a este tema e fazem com que a mulher exerça uma relação de ódio com os seus pêlos, ou seja, consigo mesma. Começando por aqui, é fácil perceber a dificuldade em entregar esta questão em mãos alheias e em encontrar alguém que trate do assunto por nós. O processo é ainda mais penoso quando se quebram hábitos e relações e se tem de procurar uma nova esteticista. Foi neste cenário que me deparei e conheci Ângela. 

Baixa, loira e de olhos claros a pronúncia denuncia-a e após o gelo quebrado, deitada na marquesa, pergunto-lhe de onde é. Moldávia. Começa por olhar para os meus pés e explicar-me que deveria utilizar uma palmilha especial porque tenho o pé chato, que quando for mais velha posso ter de ser operada porque tenho joanetes desde criança. Fico intrigada e ainda mais despida por ouvi-la a falar com tanto à vontade sobre um assunto em que nunca outra esteticista tocou. Continuamos a conversar e falo-lhe do meu novo trabalho, pergunta-se se precisamos de mais alguém na equipa, respondo-lhe que no futuro talvez e pergunto para quem seria a vaga... para a filha. Estudou Design numa das mais conceituadas faculdades do país e agora está sem emprego. Pagou esta faculdade por fazer questão de dar a melhor educação à menina pois ela mesma tem um curso superior, enfermeira! Exercia na Moldávia mas teve de emigrar para Portugal e depressa descobriu que fazer o mesmo cá não seria viável. Sem equivalências teria de começar o curso de enfermagem do início e com dois filhos pequenos, um trabalho e sem dominar a língua foi deixando passar o tempo e dedicando-se a outro ofício. 

Tudo o que me conta é de forma meio tímida mas despachada, sem remorsos ou pessimismos. Nunca se imaginou a ser esteticista/massagista/podologista mas é isso que faz com dedicação. Os conhecimentos em saúde ajudam as clientes em forma de conselhos delicados, tal como fez comigo. As suas preocupações vão agora para a carreira dos filhos, que tal como tantos jovens, se encontram à deriva num oceano de incertezas. 

Portugal tornou-se numa espécie de Moldávia ou Ucrânia, um reflexo daquilo que os povos de leste viveram na década de 90. A emigração deixa de ser um abismo para ser um passadiço viável ao futuro. Começa-se do zero e mudam-se as directrizes dos sonhos, trocam-se carreiras de estatuto superior por empregos também importantes e muito necessários, mas que desafiam o status quo. Vivemos numa época em que se perde a vergonha e se admite, não o fracasso, mas o fruto dos tempos: a mudança. Temos de enfrentar e moldarmo-nos às oportunidades, seguirmos o exemplo da Ângela!

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