25 de janeiro de 2016

Hoje Despertei



"Truth is like poetry. And most people doesn't like poetry." (heard in a Washington D.C. bar) 


Fui ao cinema ver The Big Short. O filme abriu-me os olhos (como naquela cena de A Clockwork Orange) e explica-me, como se eu fosse muito burra o quão burra sou... Ainda assim não entendo tudo! Como o filme está feito compreendo que não sou a única a viver num cubo de ignorância. "Como a Crise Mundial de 2008 foi Prevista e Ninguém Quis Saber, Para Totós". Passo a explicar, talvez com um pouco de spoilers, mas sigo em frente... 

A obra de Adam McKay é construída em modo documentário e baseada em factos e pessoas reais. Explica-nos como os bancos enganaram milhões de pessoas ingénuas e inebriadas pelo falso poder de aquisição. A crise financeira começou no monstro Estados Unidos da América e alastrou-se em efeito dominó por todo o mundo. Esta catástrofe foi prevista por Michael Burry, um ex-médico que se dedicava ao investimento financeiro. Com uma carteira de clientes muito, muito ricos geria milhares de milhões de dólares e conseguiu grandes lucros com base numa teoria em que ninguém acreditava. Ele previu que muitos dos créditos financiados pelos bancos iriam deixar de ser pagos, quando todos confiavam que qualquer americano pagaria sempre. Enganaram-se. Dito da maneira mais estúpida e fácil que encontro e sei, Burry quis apostar em como os pagamentos do crédito à habitação iriam falhar. Enquanto os donos dos imóveis iam pagando as suas hipotecas ele tinha de pagar uma taxa ao banco, mas quando os indivíduos deixaram de ter capacidade para saldar a sua dívida, o banco teve de pagar a aposta com os resgates financiados pelos cidadãos. Sim, como num jogo... 

Tenho um espaço em que falo de Cinema e tudo isto podia ser escrito lá. Porém, mais que um filme isto foi uma ferramenta bem poderosa que me fez perceber que importa estarmos informados, importa querermos saber. Este filme é uma arma social, é cínico e isso motiva-nos a investigar, a odiar a forma como somos tratados! Esta sordidez em nos tratar como acéfalos vai até ao ponto de numa narrativa cheia de termos financeiros, que a maioria dos comuns mortais desconhecem, colocarem Margot Roberts, nua num banho de espuma, beberricando champanhe, a dar-nos uma mini aula sobre um dos conceitos. Segue-se Anthony Bourdain e Selena Gomez. Resumindo: pegaram na bombshell do momento de Hollywwod, linda e meio que objectificada; no popular chef americano, rei da cozinha reality e muito terra-a-terra; na ex-menina Disney, cantora e ex-namorada-Bieber que é só uma das imagens femininas pop mais influente desta geração. Estas escolhas não foram ao acaso, foram estudadas para resultar num "só assim vocês dão atenção a estes assuntos". Sublinham o nosso desinteresse, a nossa vontade de ir ao Cinema e ligar a tv em busca de conteúdos fáceis, que não nos façam pensar mas sim desligar depois de um dia de trabalho ou à procura dele... São a estas pessoas que damos ouvidos e essa é a estratégia do realizador para que percebamos e acreditemos naquilo que nos quer desvendar.

A ganância e maldade que aprendemos em pequenos, nas histórias, é real e o bem nem sempre vence. É este o final do filme e o início da minha vida adulta. Em 2008 entrei na faculdade e rapidamente me fui apercebendo dos desafios colocados à minha geração. Os nossos pais quiseram dar-nos aquilo que não puderam ter. Os créditos são muito a prova disso. Com estes facilitados pelos bancos, que só querem lucrar e só vêem números, qualquer um comprava bom carro, boa casa, pagava um curso. Depois é sair de um buraco cheio mas sem ferramentas para escalarmos. Curso superior não é sinónimo de emprego... Ter casa não é sinónimo de ter comida na mesa... Vemos habitações que toda a vida "pertenceram" a alguém a serem leiloadas... Aí percebemos que sim, a maldade e ganância existem. 

Hoje ponho em causa a minha sede de conhecimento, até aqui tão pouca. Hoje percebo como a ignorância é realmente a melhor amiga da felicidade. Hoje decido abdicar dessa felicidade. Hoje despertei.

(Este artigo foi escrito exactamente após as eleições Presidenciais 2016.) 

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