6 de março de 2016

O Meu Pedaço de Céu na Terra


Este podia ser um texto da série "Em 2016 Vou..." cuja continuação seria, Ser Mais Sustentável. É a abordagem ao tema Vestuário Em Segunda Mão, pela caneta da Plácida Mendes. Estudou Design de Moda, finalizando a sua formação com uma tese que focava a globalidade e multiculturalidade da moda. Como muitos amigos, ela foi mais uma a partir para aquele destino tantas vezes repetido, Londres. Usamos o nome da cidade levianamente, evitando o palavrão Reino Unido, pois numa cidade que muito promete, os sonhos transbordam e ficam à deriva no rio Thames. Empregos de sonho não existem, mas à beira da capital mega turística, Plácida encontrou o seu paraíso. É sobre essa experiência que nos fala...


 

“Heaven, I'm in heaven.
And my heart beats so that I can hardly speak.
And I seem to find the happiness I seek.”



Frank Sinatra em tempos cantou ‘Cheek to cheek’ para milhares de fãs do romance, no entanto a música aqui é outra e em nada se relaciona com o amor ou a afeição que um homem sente por uma mulher, mas sim a atracão e entusiasmo de um consumidor por produtos de consumo. Mas chamo a atenção para a música, especialmente para os versos transcritos, pois eles descrevem exactamente o que muitas pessoas sentem quando entram numa loja de caridade e se deparam com inúmeras oportunidades de ajudar terceiros, ao mesmo tempo que saciam a sua vontade de consumo.

Mas antes de descrever a minha experiência neste tipo de lojas aqui em Inglaterra, tenho que esclarecer o meu conceito de lojas de caridade, e digo o meu conceito pois acredito que outros possam e devam ter uma ideia diferente da minha. Pelo que tive a oportunidade de conhecer e explorar, as lojas de caridade são e estão sempre associadas a lojas de produtos de segunda mão. Porém, penso que esse conceito para os ingleses é um pouco diferente do conceito português, falando num ponto de vista generalizado, é claro, isto porque aqui uma loja de caridade tem que estar completamente e obrigatoriamente vinculada a uma causa humanitária (banco alimentar, ajuda e protecção de animais, luta contra o cancro...). Por outro lado, uma loja de produtos de segunda mão não tem essa imposição. Obviamente no final do dia o principal objectivo de ambas as lojas é a geração de lucro, mas o que as distingue é o facto de que uma loja de caridade deve ter como principal objectivo gerar lucro a fim de ajudar a causa que defende.

A minha primeira experiência numa loja de caridade inglesa foi, no mínimo, enriquecedora, na falta de palavras que melhor descrevam a minha surpresa e entusiasmo. Para pessoas de carteira fina, como eu, fazer compras em lojas de renome internacional sempre foi um sonho porque os produtos oferecidos pelas requintadas marcas são etiquetados com preços que fazem nascer condomínios fechados nas partes mais nobres da cidade, todavia, com hipérboles à parte, as lojas de caridade aproximaram-me dessa realidade. 

 Foto de Buck Ennis

O que mais me fascinou foi exactamente a forma como as organizações gerem e organizam essas lojas de caridade de forma tão sustentável: todos, ou pelo menos 99% dos produtos que são vendidos são doados. As doações feitas são cuidadosamente rastreadas: os artigos em boas condições são vendidos e os que se encontram danificados são vendidos a companhias de reciclagem ou entregues a outras entidades para serem re-aproveitdos. Apenas em último caso são descartados para aterros sanitários. Existem pessoas a fazerem trabalho voluntário nas lojas com a finalidade de adquirir experiência laboral, pessoas com limitações motoras ou intelectuais a quem é concedida a oportunidade de fazer parte da organização e outras que fazem voluntariado com o simples propósito de ajudar outros. Todos os passos dados são meticulosamente pensados com a finalidade de gerar grande lucro para as causas que apoiam, mas também com a forte intenção de envolver e unificar uma comunidade.
 
“Mas são produtos de segunda mão, eles nunca terão a mesma qualidade que os produtos novos de loja”. Por favor não sigam essa linha de pensamento, pois o conceito ‘segunda mão’ quer dizer que eles pertenceram a outra pessoa antes de serem vossos, ou seja, podem muito bem encontrar artigos novos, nunca antes usados em lojas de segunda mão. Mesmo aqueles que já foram usados apenas são vendidos em bom estado ou quando ainda possuam o seu valor de marca. 

Ao contrario das lojas de fast fashion, não é possível encontrares sempre o que procuras, no tamanho e cor que queres, a preço de saldo. Mas podes encontrar produtos com a mesma idade das bonecas de pano da tua mãe, roupas, sapatos, malas de designers europeus/americanos/asiáticos, artigos de decoração incríveis, móveis do Ikea, brinquedos que rasgam sorrisos no rosto de qualquer criança ou adulto… E a melhor parte é que os preços nas lojas de caridade serão sempre mais baixos que os originais e a compra irá contribuir para ajudar uma organização/projecto digno de atenção. ‘It’s a win-win situation’, esta é a frase que mais se adequa para descrever esta forma de consumo. Os meus bolsos nunca precisam ser muito fundos para satisfazerem as minhas necessidades de consumo quando se trata de lojas de caridade. Quer dizer, se for às melhores, pois como é óbvio existem algumas que são mais caras e outras mais baratas.

 Steel do vídeo 'Thrift Shop'
 
‘Cheek to cheek’ de Frank Sinatra foi o que me abriu as portas da primeira loja de caridade que visitei em Inglaterra, e acreditem, eu não poderia estar mais de acordo com os versos cantados pelo norte-americano. A música pode não estar em nada relaciona com estas lojas, a não ser pelo simples e maravilhoso facto de que muitos de nós sentem que encontraram o céu na terra quando entram e se deixam envolver e encantar pela complexidade que estes pequenos negócios são. Mas se Frank Sinatra está muito fora da vossa geração, talvez Macklemore e Ryan Lewis descrevam melhor o sentimento com ‘Thrift shop’:



“I wear your granddad's clothes

I look incredible

I'm in this big ass coat

From that thrift shop down the road”
 

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