3 de abril de 2016

Em 2016 Vou... Fazer Voluntariado


 Audrey Hepburn, 1992 Somália

Depois de um sábado de trabalho lembrei-me de um editorial da British Vogue e decidi-me a ir comprar a revista. Desci a baixa, passei o Rossio e entrei ali mesmo no inicio da Avenida da Liberdade. Durante muito tempo tive nas minhas notas: escrever sobre a pouca concordância entre o nome e o local. Hoje é o dia. No ponto de partida para uma das artérias de Lisboa, salpicada com as lojas mais luxuosas e rodeada pelas mais fast do mundo, vemos casas habitadas, casas com vida, mas em cartão. 

Chamem-me de inocente, mas esta realidade dá-me um soco no estômago. O que vi e vai para uma gaveta muito especifica do meu cérebro, activou a vontade de agir, de mobilizar, de tentar. Ali, às 19:30 de um sábado de Janeiro, vivia-se com chão de cartão e tecto de estrelas. Sem paredes. Sem nada. O contraponto com o meio envolvente foi tão duro para mim, tão cru e doente. Turistas de Starbucks na mão, copos de luxúria materializada em açúcar. Amigos que se encontravam para irem jantar e passar um bom serão, vestidos de sábado à noite. Muitas mãos com sacos das lojas em redor, ainda em saldos. O tumulto e a festa da primeira semana de 2016. Ao lado, do lado que só eu parecia olhar, casas de cartão, sonhos alterados e desconhecidos, sempre sem rosto. Porque esses rostos não nos importam, incomodam, fazem-nos sentir egoístas, capitalistas, pouco humanos. Esses rostos magoam-nos, dão-nos socos. Esses rostos nunca têm nome, tornamo-los falsamente transparentes. 

 Angelina Jolie, 2015 Afeganistão

Até que chega o dia em que tento ajudar, com palavras. O meu voluntariado foi parar no meu caminho frenético, perante um pedido de dinheiro e enfrentar um rosto que para mim já não era transparente. Era um rapaz que bastante novo e que já tinha visto em algumas manhãs a dormir à porta de uma sapataria. Disse-lhe para sair da rua, assim, directamente. Que procurasse ajuda e que se decidisse a aceitá-la, que tentasse resolver o seu problema, porque era muito jovem e tinha uma vida em frente demasiado valiosa para desperdiçá-la ali. Argumentou com a questão da liberdade, que se pedir ajuda a perde e volta a ser controlado, como já foi em várias instituições. Consigo entendê-lo, mas nada é tão simples assim. Nada é tão utópico assim. Não se prefere a rua a um abrigo só para ser dono do nosso tempo. Para mim há sempre algo por detrás destes rostos, problemas graves e difíceis de resolver, quase sempre alvos de preconceitos e condenados pela sociedade. 

A Joana, é assistente social e trabalha numa clínica de apoio a toxicodependentes. Sempre procurou fazer voluntariado com populações mais vulneráveis e diz que isso a fez crescer como pessoa e valorizar outros aspectos da vida. Quando lhe pergunto se foi difícil adaptar-se à realidade da clínica diz-me que a partir do momento em que diariamente faz aquilo que gosta se torna mais fácil lidar com as situações. Para quem quer ser voluntário diz que o primeiro passo é informar-se pois existem várias causas a necessitar de recursos humanos. Destaca a protecção de animais, por serem criaturas totalmente indefesas e dependentes; "os hospitais, nos serviços de oncologia e pediatria porque há muitas pessoas que passam lá grande parte do tempo e é importante terem alguém com quem falar, nem que seja sobre o tempo"; e as associações de sem-abrigo,criadas quase sempre por voluntários, pois fazem um trabalho excepcional que salva vidas. Podemos ainda falar do apoio a crianças, idosos e deficientes. Para quem tem dificuldade em lidar com as pessoas pode sempre procurar uma vertente mais indirecta de apoio. Há momentos assim, em que simplesmente estamos indisponíveis a nível psicológico para ajudar. Nessas alturas podemos optar por apadrinhar causas monetariamente ou fazer parte de tarefas que não incluem o contacto permanente com as entidades carenciadas, mas sim com as organizativas. 

Tyga e Kylie Jenner, 2014 Los Angeles

A Mariana, após terminar os estudos, resolveu voluntariar-se quando se viu com algum tempo livre. Aliou-se à Refood na recolha e organização de alimentos procedentes das unidades de restauração parceiras. Num trabalho sobretudo de "bastidores", mas que é o pilar da causa, o contacto com os alvos da acção é minimizado e são  as famílias e indivíduos com necessidades que se dirigem às instalações mais perto do seu bairro. Está tudo muito bem planeado: as famílias levam determinadas doses para casa, que ficam registadas na base de dados da organização. A ideia é reaproveitar os desperdícios alimentares colmatando necessidades básicas e diárias. Durante o seu voluntariado semanal a Mariana sentia que partilhava as suas horas em prol de um trabalho comunitário que a realizava.

Catarina Furtado, 2010 Guiné

Já a Rita, hoje enfermeira veterinária, sempre adorou animais e como projecto de turma no 12º ano fez parte da angariação de fundos para a associação de canis da zona. Com esse dinheiro adquiriam alimentos, produtos de higiene, medicamentos, camas... Posteriormente começou a fazer voluntariado no canil da Golegã, com uma amiga. Aqui trabalha uma senhora que acabou por construir um abrigo na sua propriedade, para poder ajudar mais cães. A Rita e a amiga iam lá uma vez por semana limpar jaulas, alimentar os animais e chegaram a participar nas campanhas de adopção em locais públicos. Como fazia parte das suas capacidades, a Rita examinava alguns cães, fazia curativos e outros tratamentos mais complexos como estabilizar fracturas. Mesmo após dias e dias de trabalho põe de lado o cansaço para fazer com que o dia de cada cão seja mais confortável. A enfermeira veterinária sabe que muitas pessoas desvalorizam esta preocupação com animais, mas aconselha a todos que visitem e se voluntariem por um dia. Assim irão perceber a doçura e carência destes seres indefesos. Como ela diz, "Só mesmo ao veres a reacção deles é que percebes o quão gratos eles ficam com as pequenas coisas".

As minhas experiências de voluntariado foram sempre num contexto escolar e de faculdade, coincidentemente com portadores de deficiência mental. Para mim, uma hiper sensível, foi realmente difícil lidar com condições de vida tão diferentes da minha. Mas lá está, fazer voluntariado pode ter imensas ramificações, desde pertencer a um grupo de apoio às comunidades de terceiro mundo, organizar acções de solidariedade, doar sangue, fazer dedução de IRS por donativo ou simplesmente parar, conversar, querer saber, partilhar. Em 2016 ser voluntária faz parte dos meus planos e espero ser mais activa socialmente. É urgente ajudar!

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