2 de setembro de 2016

Agosto na Cidade


Enquanto recebia um aroma intenso a maresia via Instagram e Facebook, trabalhava. Lisboa esteve inundada de turistas, com os seus uniformes de férias: calção curto, mangas cavas, vestidos esvoaçantes, Havaianas, Birkenstocks, saltos altos (aposta de estrangeira que não conhece ainda a calçada ou de adolescente destemida) e máquinas fotográficas em riste. Andam a passo vagaroso com várias paragens de contemplação. Têm tempo, não têm pressa e entopem as artérias do coração da cidade. Não acho mal esta predileção pela nossa capital, tão bonita, do Terreiro do Paço aos subúrbios. Porém, esta maré de gente atrapalhou a minha, pouca, agilidade, tão necessária quando se passa o dia na rua mais movimentada da Baixa.

Percebi que é essencial adquirir não só uma postura descontraída, como também um guarda-roupa todo o terreno. A escolha por calções, de bainhas bem mais compridas que as das suecas, é óbvia para suportar o calor e as surpresas do dia-a-dia. T-shirts básicas e escuras são um bom truque para lidar com suores e nódoas (sem ironias, preocupa-me esta relação calor-corpo humano). Birkenstock nos pés e o mais importante, a desmarcação da multidão. Para além de se cortar caminho por atalhos urbanos pouco concorridos, é importante mostrarmos que estamos em serviço e não de férias e a melhor técnica que eu encontrei foi uma mochila de equipamento informático. Durante muitos dias de Agosto deixei a minha carteira em casa e usei um daqueles modelos de mochila pouco apelativos, com índole técnico-prática e nada de belo. Lá dentro pouco mais que porta moedas, chaves, telemóvel e algumas compras relacionadas com o trabalho. Raras vezes computador. Leveza e destreza para se andar num metro ou rua lotados. Comecei a olhar em redor com mais atenção e a perceber a existência desta espécie trabalhadora de Agosto, destes indivíduos que usam, também eles, mochilas de aparência pesada, operariado do século XXI. Para a roda girar no Verão, quando metade dos portugueses se encontram na linda costa, é preciso que alguém a empurre. Muito serviço de bastidores mas também de atendimento ao público, muitos empregos sazonais.

Agosto na cidade, aos meus olhos, é um exercício de estilo, de adaptação ao calor sem deixar de ter um ar profissional. É tempo de conciliar agendas lotadas de casamentos, batizados, aniversários, tentativas de idas à praia (ali tão perto e nunca a vimos) com horas extra, reuniões e listas intermináveis de tarefas. Agosto na cidade é um desafio ao género A Cigarra e a Formiga O Turista e A Formiga.

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