21 de setembro de 2016

Índia em Londres | Ashish SS 2017



Num dos primeiros trabalhos da faculdade, o Professor David, na cadeira de desenho, pediu-nos para seleccionarmos um designer e fingirmos que iríamos desenhar a continuidade de uma das suas colecções. Lembro-me que estávamos em 2009 e eu escolhi um até então, para mim, desconhecido Ashish. Encontrei-o numa pesquisa ao Style, que agora é Vogue Runway. A colecção tinha temática circense, era divertida, feminina, as peças tinham brilhos, cores vibrantes, estampados e o conceito era irónico.


Volvidos 7 anos o criativo continua com as mesmas mensagens sociais, cobertas em glitter e humor. Na última proposta para a Primavera 2017 usou a Índia como matéria prima das suas ideias. Concretamente, baseou-se na sua herança cultural e religiosa para construir 35 looks que esbatiam feminino e masculino mas sublinhavam a ideia de divindade humana. O ambiente era de ritual mágico, onde nada foi deixado ao acaso, desde a música da sitar à maquilhagem excepcional. Muito se tem falado de apropriação cultural e dizem que Ashish pode beber desta fonte porque tem ascendência indiana. Percebe e vive os conceitos, não se limita a mimetizar o estético, o visual. Num comunicado da era moderna, via Instagram, o designer clarifica a situação explicando que é indiano e, não só quis celebrar as suas raízes, como também a multiculturalidade em que vivemos. Neste pequeno texto, toca num ponto com o qual concordo a 100% e que é, basicamente, a razão para eu nunca ter falado de apropriação cultural aqui no blog: na nossa sociedade mesclada todos somos influenciados por outras culturas, nas coisas mais mundanas do dia-a-dia. Todos nos apropriamos daquilo que gostamos, que nos apela aos sentidos, seja Moda, Cinema, Música ou Gastronomia...


Esta colecção exibe não só a herança indiana, como também a diversidade étnica e de género, através do casting de manequins. A crítica, em plena Semana da Moda de Londres é obviamente política, no rescaldo do Brexit e feita, também, através das clássicas mensagens em t-shirts. O resultado do referendo afectou os imigrantes por terras de sua majestade, que não se sentem acolhidos no seu próprio país, onde trabalham e contribuem para a economia nacional. O racismo parece imperar na mega aldeia global que é Londres, onde a maioria da mão de obra é imigrante há anos e anos. A cidade é o exemplo máximo de globalização e o Reino Unido tem fortes liagações sociais, comerciais e culturais com a Índia, desde os anos 40. Foram estas as ideias que Ashish quis partilhar através do seu trabalho e eu, mais uma vez, faço-lhe uma vénia. 


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