10 de outubro de 2016

Educação Sexual

Foto de Cassie Bird para i-D magazine
 

A Moda, na sua transversalidade aos temas do dia-a-dia, tem sido uma ferramenta preciosa na Educação Sexual da sociedade. Se no outro dia falei na faceta política, que esta indústria pode ter, hoje o foco é outro. As artes sempre utilizaram a sexualidade como musa e assim de cor posso dar dois exemplos na Pintura: O Nascimento de Vénus de Botticelli e O Jardim das Delícias Terrenas de Bosch. No panorama da Escultura parece que os gregos antigos tinham menos pudor que os hipster super-mente-aberta de hoje. A nudez era constante e recriada com naturalidade e realismo. Na Literatura e no Cinema, erotismo é um estilo de onde surgiram inúmeros autores, entre eles Anais Nin, personificada no filme Henry and June.

No campo artístico mais rentável e democrático, a Moda, muitas incursões pelo erotismo foram trilhadas, desde os corpetes e roupa interior usada exteriormente por Jean Paul Gaultier, nos anos 80, à colecção voyerista de Rick Owens em 2015. Através da fotografia de Moda, artística ou publicitária, também temos casos de estudo, como as campanhas de perfumes Tom Ford, a obra de Helmut Newton,

Enquanto estas representações de erotismo se ficavam pela estética, apoiando-se na nudez para reforçarem a popularidade da marca, hoje a questão do exibicionismo é muito forte. Nas redes sociais cada vez mais jovens mostram-se livres, leves e soltos em fotografias sensuais. Quase sempre com perfis públicos, é muito fácil navegar numa onda de soft porn nunca antes vista. As fotos caseiras cada vez mais profissionais, quer numa imagética que envolve muita produção, quer numa tendência mais trashy, as nudes (como agora chamam a este género de retrato) habitam qualquer smart phone, mesmo que não se queira. E qual o papel da Moda neste contexto? Para além do vestuário que vai aparecendo nestas fotografias, e que dependendo da modelo atingirá o estatuto de objecto de desejo, as propostas dos criadores podem ajudar a  alterar mentalidades.


Se Gaultier chocou o mundo com as suas caixas de peito cónicas e lingerie estruturada para usar fora de quatro paredes, Mary Quant popularizou a mini-saia que exibia bastante o corpo feminino. Mas chega de falar do século passado... Este fim-de-semana vimos a colecção de Micaela Sapinho, na plataforma Sangue Novo da ModaLisboa. A jovem designer uniu-se ao movimento Free the Nipple e criou uma manifestação feminista que traz, também, à memória todas as polémicas em redor do assédio/ violação sexual. A modernidade traz-nos desafios monstruosos como este, da educação sexual numa sociedade tão avançada tecnologicamente que é difícil acreditar nas tristes notícias diárias. Os cartazes que as modelos empenhavam tinham frases tão elucidativas como o estampado das peças de vestuário. Uma abordagem à reivindicação da mulher por escolher aquilo que faz com o seu corpo, tanto quando o mostra como quando o protege.


Indo para além da mensagem directa das criações de Sapinho, poderíamos continuar a falar de nude selfies, fotografia erótica, amamentação em público, religião, censura, preconceito e por fim... igualdade. Nada mais actual, infelizmente, que estes temas. Devem ser debatidos à mesa de jantar, com adolescentes e crianças autorizadas a ouvir e opinar. A importância da visão das gerações mais novas é crucial para que se construa mais confiança na sexualidade, para que rapazes e raparigas consigam ser mais responsáveis na tomada de decisão. A informação é tudo. A Moda informa e educa através do vestuário e através das mensagens que propaga com este e com os imaginários que cria em campanhas, colecções e tendências mais ou menos massificadas.

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